Odoyá, receba o nosso lixo!

 

 

IMG_0481Odoyá, receba o nosso lixo!

Por décadas, eu frequentei a festa dedicada à Iemanjá no Rio Vermelho. Desde 1986, acho, de forma ininterrupta. Eu sou diurno e sempre cheguei cedo, por volta das cinco horas da manhã. Sol nascendo, frescor danado, muitas flores, uma quantidade razoável de pessoas voltada aos pedidos e agradecimentos. Havia sentido de revelação ali. Era a parte religiosa do Dois de Fevereiro. Durante o dia, a festa ia ganhando novos contornos. Ia ficando mais quente, em muitos sentidos. No final do dia, a bagaçeira estava instalada. Várias festas em uma só.

Eu gostava como era. Era, pois as coisas mudaram. Agora, grandes shows tomam o Rio Vermelho desde a noite do dia primeiro e reúnem muita gente. Na alvorada do dois de fevereiro, o clima já é de fim de festa. Sujeira e bebedeira para todos os lados. Márcio Correia, no texto “Alvorada hipster na festa de Iemanjá gentrificada”, escreve sobre isso melhor do que poderia fazer.

Enfim, mudou e pronto. Como não tem mais alvorada, eu resolvi ir à noite do dia dois de fevereiro para colocar a minha flor, meus agradecimentos e conferir os shows de Larissa Luz e Baco Exu do Blues, festa promovida pelo “Lalá”.

A questão que me leva a escrever essas linhas é que, mesmo acostumado com a sujeira que tais aglomerações provoca, eu fiquei impressionando com a montanha fétida de plástico e dejetos diversos que escorriam para o mar naquele final de tarde, início da noite… Não dá para se acostumar com isso, achar tudo normal. “Odoyá! Odoyá!! Receba o nosso lixo, minha mãe.” Seríamos menos hipócritas se rezássemos assim.

No último sábado, dia 03 de fevereiro, o mesmo se passou no Santo Antonio. A festa era do DeHJa8, bloco jovem, mas que já é “tradicional” do bairro. Agremiação pequena, mas que atraiu uma multidão jamais vista no bairro. O “DeHJa8” sempre fez uma bela festa, nos moldes dos mais antigos carnavais. Iniciativa mais do que admirável! Mas, outros blocos saíram na mesma tarde do dia 3 de fevereiro, proporcionando uma aglomeração absolutamente impensável. Foi muita gente e a quantidade de lixo não foi nada desprezível.

Não tinha a lama fétida do Rio Vermelho, mas, em compensação, os comerciantes do bairro comercializaram cerveja em garrafas de vidro. Passados alguns dias, ainda temos que catar cacos na praça onde as crianças do bairro costumam brincar. Moradores saíram às ruas, em mutirão, recolhendo lixo e lavando os muros, no dia seguinte. Mijo e cerveja para todos os cantos.

Impressiona que a população, no geral, não se sinta responsável pelo lixo que produz. Não há novidade nisso, é fato. Impressiona, ainda, como os organizadores das festas (donos de blocos e bares) não se responsabilizem por catar ou mesmo convencer os foliões a zelar pelas ruas e praças. Não há (ao menos eu não vi) nenhuma ação educativa/ parceira nesse sentido. O “DeHJa8”, formado por pessoas esclarecidas e engajadas socialmente, não poderia formar uma turma de foliões com carrinhos de mão a acompanhar o bloco? Não resolve, é verdade, mas seria uma ação a se espalhar, lembrando que quando convidamos as pessoas para a nossa casa, temos que zelar por ela até o final.

Seria possível que o “Lalá” armasse um grupo de foliões brincando de pegar lixo? Voluntários que ganhariam uma entrada para os shows, depois? Sei lá, puro devaneio, provavelmente… Creio que não dá mais para apenas jogarmos a responsabilidade para o poder público.

Escrevo essas linhas e já escuto sons do carnaval atravessando as paredes da casa. Festa única, que aqui no bairro do Santo Antonio ganha contornos grandiosos a cada ano que passa. A alegria se mistura ao ranço anti-ecológico da folia momesca.

Odoyá!

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