Sobre o trabalho e a transformação

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Entendemos logo de início, em Pela Janela, de Caroline Leone, que o trabalho é o tema central do filme. Estamos em uma fábrica, em São Paulo, e Rosália (Magali Biff) trabalha com esmero. Retrato do operário padrão, termo precioso ao desenvolvimento militar dos anos 70, Rosália dedicou cerca de 30 anos àquela linha de produção.

Dado os avanços tecnológicos da vida real esses espaços fabris soam datados. Aliás, também em termos do cinema, nos joga para o passado, pois nos remete a Tempos Modernos, de Chaplin, ou mesmo A Saída dos Operários da Fábrica, dos Irmãos Lumière.

Em Pela Janela, quando não estamos na fábrica, vivenciamos o dia-a-dia silencioso e solitário de Rosália em casa. Um contraste pouco estimulante, pois, no fundo, Rosália continua imersa em si. Reage como um autômato. Sua vida se resume a pouco e tudo já muito decodificado. Não falta dignidade, mas falta viço. No entanto, todo esse “pouco” é muito para essa senhora metódica, com uma vida regrada e sem sobressaltos. É assim que Rosália construiu e alimenta seus alicerces.

Algo que se imagina logo e que não demora a acontecer no filme é a modernização da empresa. Rosália entra na sala do chefe por algum motivo bobo e BUM! Os pilares dessa senhora de 65 anos desmoronam, sem aviso prévio.

Ela ainda retorna à empresa, no dia seguinte, humilde, desnorteada, e oferece seus serviços generosamente, de graça. Subserviente e extremamente grata, ela se coloca a disposição do jovem empresário. Uma cena dura que a leva à depressão.

Aí que entendemos que Pela Janela é menos sobre o trabalho e mais sobre a transformação de um corpo cansado, de uma alma maltratada. É sobre se libertar a qualquer tempo, em qualquer idade. De uma forma sutil, cuidadosa e muito respeitosa com a personagem central, assistimos a um processo de cura.

Essa jornada se inicia com a viagem para a Argentina com o irmão (Cacá Amaral). No trajeto, ela terá a oportunidade de molhar o rosto, as mãos e a alma. A partir de determinado momento, o mais importante no filme é entender como isso tudo passa a ser contado. Pois os acontecimentos se desenrolam de forma muito sutil, num filme sem excessos e onde pouco se fala. Tudo está às claras, sem mistérios. A história é contada com rara segurança e delicadeza.

Situações simples se sucedem dando nova dimensão à vida da Rosália, que ganha um frescor típico de quem estava preso às correntes e parecia não perceber, não entender que algo de anormal se passava.

Eu gosto bastante como Caroline dispõe os corpos e os filma. Gosto da câmera na mão e a luz que se obtém. Pela Janela é um filme simples e muito bem pensado. Uma bela estreia em longas dessa jovem diretora!

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