Parem! Vocês são pretos!

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Verão quente, mar gelado em Los Angeles.

 

Final de tarde de um domingo em Venice Beach, Los Angeles. Verão, quente. Milhares de pessoas na avenida principal. Eu caminhava com meu pequeno Tião em uma rua paralela, fugindo de uma multidão que se apertava no calçadão.

Súbito, eu escuto um “punch” digno dos filmes de Batman. Tião entendeu o que se passava e não demora a me pedir colo. A certa distância, dois jovens negros, altos e fortes, se esmurravam à beira da avenida. Um deles, nitidamente bêbado. Eu fiquei ali parado, longe do perigo e tomado por mórbida curiosidade. Agarrado a mim, Tião não desgrudava os olhos.

A briga era feita apenas com os punhos. Os dois jovens pareciam ter alguma técnica. O rapaz bêbado (digo isso porque ele trocava as pernas e não era estilo) acertou um murro na cara do oponente, que caiu muito perto da via por onde passavam os carros. O jovem em pé titubeou, teve ímpetos de finalizar a briga ali, mas a compaixão diante do perigo prevaleceu. Ele permitiu que o outro se levantasse.

Com os dois em pé, novamente, o embate recomeçou com maior violência. Nesse momento, surge um terceiro jovem negro gritando “Hold on! Hold on! Both are Niggers! Both are Niggers!” Os lutadores perdiam convicção a cada novo grito. “Both are Niggers!”. Os dois lutadores se olhavam, mas o ódio aos poucos foi perdendo o sentido. Os jovens baixaram os punhos e se abraçaram. Pequena plateia ao redor começou a bater palmas. O rapaz que tinha possibilitado aquele desfecho sorria. Todos ali eram negros, sem excecão. No meu colo, Tião sorriu e também bateu palmas. Havia uma sensação de vitória no ar.

Eu voltei para Salvador uma semana depois.

Era uma terça-feira chuvosa e eu seguia de bicicleta pela Baixa dos Sapateiros. Ia com pressa para não me molhar. Quase perto do ponto de ônibus, no final de linha, eu observei uma viatura da polícia parada. Quatro policiais fortemente armados cercavam três jovens de cerca de 16 anos, que estavam sentados. Os jovens vestiam bermudas, camiseta e chinelos. Uma plateia já havia se formado. Todos, sem exceção, eram negros.

Súbito, um policial acertou um forte soco no lado esquerdo do rosto de um dos rapazes, que acusou o golpe e caiu no chão. Cena de extrema violência que fez com que dois senhores que assistiam a tudo gritassem, imediatamente. Eles pediam que o policial cessasse com as agressões. Eu desci da bicicleta e me juntei a esses dois homens. Nós três demos alguns passos na direção dos policiais.

Eu nem vi direito como foi que aconteceu, mas um dos homens ao meu lado recebeu um forte tapa no meio do peito: “Não se aproximem. Pode ser pior para vocês”, disse um policial.

Intimidado, eu dei dois passos para trás e levantei as mãos para o alto. Os outros dois homens fizeram movimentos parecidos. Falávamos sem parar. Pedíamos para que os policiais cessassem com as ameaças e agressões. Lembrávamos que eles tinham armas, que os jovens estavam dominados. Ouvi algo do tipo “Tem pena? Então leva para casa” e “Vocês não sabem do que eles são capazes.” Falávamos e não erámos escutados. O mesmo com os policiais, que perceberam que não sairíamos tão facilmente. Rapidamete, eles colocaram os jovens na viatura e foram embora. Eu e os outros dois homens nos olhamos. Nada falamos. Tínhamos no olhar, a derrota.

Eu peguei a minha bicicleta e retomei o meu caminho. Eu me lembrei de Venice Beach.

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