Coluna Rádio Metrópole – 18/08

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Olá amigos,

Aqui quem fala é Cláudio Marques na coluna de cinema da Rádio Metrópole.

Antes de falar sobre as estreias do circuito comercial, eu quero dizer que nós, do Panorama Internacional Coisa de Cinema, festival que vai acontecer entre 8 a 15 de novembro, estamos debruçados assistindo uma quantidade muito grande de filmes brasileiros e estrangeiros, longas e curtas.

No total, foram inscritos “apenas” mil e cem filmes! Da Bahia, tivemos catorze longas e cento e sete curtas! Um atestado que há muito cinema sendo produzido na Bahia, muita gente com vontade de “fazer cinema”. É preciso que o ouvinte esteja atento para conhecer as produções do nosso estado.

No início de setembro, nós começaremos a anunciar os filmes selecionados. Aguardem!

Durante a última semana, tivemos uma excelente Mostra dedicada ao Cinema Brasileiro, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha. Filmes marcantes dos últimos 30 anos foram exibidos. Mutos deles em 35mm.

De todos, quero destacar dois por motivos bem específicos.

“Três Histórias da Bahia”, de José Araripe, Edyala Iglesias e Sérgio Machado, é um marco divisor de águas por motivos óbvios. Depois de duas décadas, a Bahia voltava a realizar longas. Um filme composto por três médias, que teve um produtor forte e ativo por detrás: Moisés Augusto. Aliás, no debate que se seguiu à projeção, o músico e cineasta Jorge Alfredo fez excelentes considerações a cerca do papel de Moisés à época. Graças a ele, Moisés, o longa teve determinada exceleência técnica.

Verdade que o filme não foi bem aceito logo que foi lançado, a despeito de tanto esforço e dedicação. A sua realização foi traumática, gerando mágoa e machucados que ainda não cicratizaram. Eu tentei, durante o debate com Araripe, “puxar” um diálogo em termos estéticos. Gostaria de ter tranquilidade para falar sobre narrativa, tom dos atores, fotografia… mas, não consegui muita coisa. É compreensível, porque o trauma ainda permanece.

Eu gostaria de pensar que tipo de cinema foi aquele, gestado pelos três diretores. O que, em “Três Histórias”, aponta para as novas gerações que se seguiram. Acho que um diálogo mais tranquilo e sereno sobre o filme ainda há de ser realizado!

Rever “Madame Satã”, de Karim Ainouz, que estava na mesma mostra, foi muito bom. Lázaro Ramos está incrível. Me impressionou muito a atuação de “bicho solto”, desse marginal de extrema potência!  O contraste do 35mm acentua a claustrofobia da narrativa, essa decida aos infernos na Lapa carioca. A dor de João Francisco dos Santos, que se transforma em raiva desesperada dessa sociedade hipócrita. Tudo em Madame Satã é vivo, pulsa!

A sala estava cheia, o público parecia incomodado com as cenas de sexo. Parecia não estar preparado para ver Lázaro beijando outros homens. Beijos cheios de língua e cuspe. Mas, não vi ninguém sair! Um filme de corpo e alma, de verdade. Excelente sessão!

Quantos às estreias dessa semana, o filme Annabelle 2 – A Criação do Mal entra em cartaz em nada menos que mil e duzentas salas de cinema do país. É realmente um número expressivo, exagerado, que revela certa anomalia do nosso circuito comercial. E quando eu me refiro ao circuito comercial, não estou aqui colocando responsabilidade apenas nos exibidores. O circuito se pauta pelos espectadores, que é pautado pelos meios de comunicação e pela publicidade. Há ainda que se levar em conta formação (ou falta de) que esse público possui. Uma rede se forma e todos são agentes nessa anomalia.

Não tenho nada contra os filmes de terror, muito pelo contrário. Aliás, gostaria de abrir aqui parênteses: estejam todos preparados para um filme brasileiro chamado “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, que recentemente ganhou prêmio especial do Júri no Festival de Locarno, na Suíça. “As Boas Maneiras” é um filmaço, de terror, que nos lembra como esse “Annabelle” é frágil.

Que o filme é bem produzido e que garante alguns sustos, não se pode negar. A grande questão é que “Annabelle” se apóia demasiadamente nos clichês do gênero. Não há nada de novo, não há personalidade própria nesse longa.Há, ao contrário, aquela terrível sensação que se sabe o momento exato quando as situações que deveriam gerar arrepios na espinha vão acontecer.

No Brasil, há um público crescente para filmes de terror. Invocação do Mal, por exemplo, atraiu cerca de 363 mil espectadores no fim de semana de lançamento. Já sua continuação, Invocação do Mal 2, rendeu hum milhão de especatores logo no fim de semana de estreia.

Para mim, o mais importante lançamento da semana chama-se “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano. Trata-se do longa de estreia do cineasta que construiu uma bela carreira em curtas. O cinéfilo baiano mais atento lembra-se de “Bailão”, “Na Sua Companhia” e “Verona”, curtas exibidos em Salvador no Panorama, nos anos anteriores.

“Corpo Elétrico” é um filme libertário, que conta a história do jovem Elias (Kelner Macêdo), trabalhador de uma fábrica de confecções. Ele é “trabalhador”, desses a orgulhar a família. Ele acorda todos os dias para a labuta, não reclama, mesmo encarando rotina massacrante, que exaure corpo e mente dele e seus colegas. Há uma cena forte em que uma senhora passa mal e é acudida pelos colegas. Interessante saber que Marcelo escalouum palhaço de verdade para encarnar o chefe da fábrica. Não há caricatura no filme e isso faz bem! Particularmente, eu estou um pouco cansado de ver a classe média e alta serem tratados de forma caricata no cinema brasileiro.

Mas, algo acontece após a chegada de um imigrante africano (Welket Bungué) na fábrica. Elias se interessa por ele e dá início a uma série de encontros com os amigos da fábrica para que ele possa estar mais próximo do rapaz.

Em “Corpo Elétrico” temos contato com uma São Paulo generosa, amorosa, hedonista. Nesse grupo de proletários, não enxergamos xenofobia ou homofobia. As pessoas vivem, se tocam, namoram e sonham. Sonham sonhos possíveis e libertadores.

Não espere no filme conflitos ou viradas tradicionais. Há uma estrutura finamente elaborada. “Corpo Elétrico” é um filme, calmo, narrado sutilmente, orquestrados por um cineasta que soube escolher e preparar seus atores com esmero.

“Corpo Elétrico” está sendo exibido em 31 salas de cinema do país, inclusive aqui, em Salvador, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha.

Um grande abraço a todos

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