Dia dos Pais é bobagem!

Eng.Velho III.jpgDia de chuva, manhã bem cedo. Ainda na cama, meu pequeno filho me dá um abraço. Minha companheira, com um sorriso de canto a outro, diz “Feliz dia dos pais!”. O abraço é longo, inteiro. Mais gostoso e carinhoso impossível, sobretudo com uma criança de pouco mais de dois anos. Logo depois, meu filho me solta e carinhosamente me observa. Ele passa a mão no meu rosto, em silêncio. “Feliz dia dos pais!”, ela insiste. Contente, eu finalmente falo alguma coisa. “Dia dos pais é bobagem!”. Naquele momento, ninguém me escutou, de verdade. Os carinhos e afagos continuam por mais algum tempo.

Mas, a frase impensada e nada original, que já foi dita de diversas formas e com intenções variadas, me deixou pensativo. Demorei um pouco a compreender, mas é que eu fui jogado a uma manhã de um “Dia dos Pais”, uns trinta anos atrás. Não… trinta e cinco anos atrás!

Eu tinha… doze anos, acho. Eu me lembro de ter acordado contente. Estava determinado a levar o plano adiante. Era uma manhã de muito sol. Eu peguei a lata de tinta branca, bati a porta do apartamento, peguei o elevador e fui até a saída do prédio. O porteiro estranhou eu estar acordado tão cedo num domingo. Eu sorri e fui até a rua. Lá, eu escrevi em letras grandes, para todo mundo ler: “Pai, eu te amo!”. Mas, titubeei ao assinar. Deveria? Sim, claro. Escrevi meu nome logo abaixo da frase. O porteiro do prédio, que a tudo acompanhava, sorria.

Eu subi e esperei que o meu pai acordasse. Estava excitado com tudo aquilo e volta e meia eu ia olhar da janela a declaração gravada no chão de asfalto. Do prédio em frente ao que eu morava, algumas pessoas observavam e comentavam. Eu me sentia satisfeito!

Meu pai sempre acordava tarde, aos domingos. Foi uma longa espera, interminável!

Algumas horas depois, meu pai e minha madrasta abriram a porta do quarto deles. Nesse dia dos pais, meus dois irmãos pequenos não tinham dormido em casa. Tinham ficado na casa dos avós. Eu era o único filho presente.

“Pai, vem aqui”, eu chamei por ele. Eu fui até a janela e mostrei o que tinha escrito. Minha madrasta chegou logo depois e perguntou se tinha sido eu. Eu balancei a cabeça, positivamente. Meu pai olhava para baixo, incrédulo. Não respondia. Teria eu errado, mais uma vez? Um longo silêncio. “Fala algo para ele!”. Minha madrasta estava sensibilizada. Era nítido. Até mesmo ela, que sempre deixara claro que eu não era bemvindo naquela casa. Ela me dizia, quase que diariamente, que o meu pai tinha garantido, antes do casamento, que nenhum dos outros filhos iria morar com eles. Ninguém iria estragar aquela nova família.

“Fala algo!”, ela disse uma segunda vez. Meu pai finalmente olhou na minha direção. Ele estava sério. Demorei para entender o que aquele olhar queria dizer. Nem tenho certeza de ter compreendido, mas, para mim, veio, mais uma vez, a constatação de como eu era parecido com a minha mãe.

Meus pais se separaram quando eu tinha um ano de idade. Eu não tenho nenhuma lembrança dos dois juntos. Na verdade… uma única vez…. quando eu ainda morava com a minha mãe, meu pai nos visitou. Eu tinha uns… seis anos de idade. Saimos para jantar. Meus pais, meu irmão mais velho e eu. Eu me lembro de ter sido algo bom, tranquilo. Fora essa lembrança, apenas brigas e muito rancor. Eles se odiavam. Calhou de eu ser muito parecido com a minha mãe. Muito cedo, eu compreendi que quando o meu pai me olhava demoradamente, estava observando alguém que ele aprendeu a detestar.

Eu já estava constrangido. Eu mantinha o sorriso na boca. Um sorriso amarelo. Finalmente, o meu pai abriu a boca. “Dia dos pais é bobagem”, ele disse. Eu fiquei sério e senti minhas pernas tremerem. Quase caí, ali. Antes disso, porém, meu pai me deu um breve e protocolar abraço.

Eu não me sentia bem e resolvi respirar. Na rua, alguns amigos se organizavam para um “baba”. Um deles, de mesmo nome que o meu, correu para falar comigo. Ele estava excitadíssimo, parecia eu mesmo poucas horas antes. Ele me contou que, ao acordar, recebeu um abraço “imenso” do pai, que estava em lágrimas. Emocionadíssimo! E que ele mencionava a declaração de amor feita pelo filho. Meu amigo estava perdido, não entendia nada. Foi quando a sua mãe, que logo compreendera que se tratava de uma outra pessoa, contou ao meu amigo sobre a frase no asfalto. “E agora?”, se questionava o amigo. “O que eu vou fazer quando ele descobrir que não fui eu?”. Combinamos que a autoria da declaração seria dele, a partir dali. Não me servia para nada. Meu amigo ficou feliz!

A todos que me questionavam sobre a declaração, a partir daquela dia, eu dizia que não tinha sido eu.

Senti carinho ao lembrar desse amigo. O que teria acontecido com ele nesses… trinta e cinco anos. Caramba! Trinta e cinco anos!!!

Eu olhei para o meu filho brincando, pulando de um lado a outro, tropeçando e pedindo colo. Energia pura! Eu pensei em “desdizer” aquela frase sobre o dia dos pais. Mas, eu entendi que o problema não estava na frase. E que estava tudo bem comigo!

2 comentários

  1. Profundo, e lindo. Posso dizer que também passei por uma mutação. Sempre me causou desconforto a pressão que sentia da obrigação de dar um presente em datas comemorativas. Hoje estou livre, e geralmente não dou presente nestas datas, prefiro dar única e exclusivamente presença e carinho. É a minha vingança contra o sistema de consumo. Assim me sinto livre, leve e feliz. Parabéns, Cláudio Marques, vejo em você um pai brilhante. Abraço,

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